Marfina

A Livraria Legalista era convenientemente situada defronte ao prédio da Faculdade Real de Direito, oposta à entrada principal do edifício. Entretanto, menos por isso e mais pelos preços baixos praticados, é que era a livraria preferida dos estudantes daquele campus. Pobres que éramos, distantes da régia situação dos burgueses que cursavam, longe dali, a Escola de Avançados Estudos Jurídicos, não tínhamos remédio senão recorrer aos amarelados e rotos livros de segunda mão que a Legalista vendia. Sem isso, nos seria absolutamente impossível acompanhar o curso, pois os luxuosos encadernados da Livraria Themis, situada em endereço nobre da cidade, estavam completamente fora do nosso alcance.

Tão logo iniciei o curso de direito, passei, portanto, a frequentar a pequena livraria, que me parecera tão gasta e empoeirada quanto os tomos que vendia. Assim era minha impressão do lugar, até o dia em que vi Marfina pela primeira vez. A partir daí transformou-se a atmosfera, não havendo no mundo estabelecimento mais limpo, mais bem organizado e mais agradável.

Marfina era uns dois ou três anos mais velha que eu, entretanto parecia muito mais jovem. Eu, então, já carregava comigo uma proeminente barriga e meus cabelos tornavam-se mais ralos e cada dia. Meu pai brincava que, mesmo antes de formado, eu já começava a desenvolver físico de advogado. Rebentava de orgulho por eu ter sido aprovado no exame de admissão da faculdade. Ele próprio jamais o conseguira, e, sem dinheiro para ingressar na Escola de Avançados Estudos Jurídicos, passara a vida como rábula. Não se queixava, sustentara a família com essa ocupação, mas sem nunca realizar os sonhos de classe média que alimentava, como possuir apartamento próprio, custear a escola de balé da minha irmã mais jovem, ou meu ingresso na Academia Militar. Seja como for, quando fui aprovado na Faculdade Real de Direito, o velho exultou. Lamento que não tenha vivido para ver-me advogado, colhido pela Magra apenas três meses antes da minha formatura.

Mas, Marfina. Era dois palmos mais baixa que eu, mas isso só se percebia após exame minucioso, pois, de tão vistosa, parecia bem mais alta do que de fato era. Tinha o rosto mais simétrico e perfeito que se possa conceber, e o sorriso mais iluminado que alguma vez se viu. Seu corpo nem mesmo me atrevo a tentar descrever, pois para fazer-lhe justiça seria necessária a pena de laureado escritor, e eu não passo de um reles procurador.

Lembro-me ainda, claro como se fora ontem, da primeira vez em que a vi. Ainda calouro, começava a frequentar a Legalista, após certa relutância, pois planejava comprar livros novos, e não os esfarrapados volumes usados da pequena livraria. Pouco durou minha determinação, porém: apenas as Lições Introdutórias aos Altos Estudos do Direito, volume nada menos que fundamental para atravessar o primeiro ano do curso, custava, novo, mais do que o dinheiro que meu pai me dava para passar o mês inteiro. À época me parecia um vexame chegar às aulas com um livro velho, a capa gasta, o miolo amarelo, mas não tive remédio senão capitular. E lá fui eu à Legalista, sentindo-me genuinamente derrotado, já antevendo a troça que me fariam os colegas – medo jamais concretizado, que todos eles também tinham livros tão velhos quanto os meus.

E dou de cara com Marfina e seu sorriso de derrubar impérios. Me cumprimentou, quis saber em que podia ajudar-me. Podes vir comigo agora mesmo, vamos fugir – em meu delírio febril eu não sabia de quem ou porque fugiríamos, mas isso pouco importava – para longe, vamos embora, vamos para um canto onde não haja ninguém além de nós. Por um segundo eu esquecera o que estava fazendo ali, onde estava, quem eu era; imaginem então se podia lembrar o título do banal encadernado de que precisava.

É certo que o curso de Direito, com sua constante fome de livros, me obrigaria, de qualquer forma, a numerosas incursões à Livraria Legalista. Entretanto, eu ia lá muito mais vezes do que necessitava, apenas para ver Marfina. Algumas vezes comprava algo de que nem mesmo precisava, somente porque isto me parecia agradá-la. A cada vez que a via, meu sentimento por ela tornava-se mais e mais intenso, chegando às raias do desespero. Eu amava tanto Marfina que seu sorriso era até mesmo doloroso, o balanço de seus longos cabelos me causava vertigem, o ondear dos seus quadris dissolvia pouco a pouco minha sanidade, feito pêndulo de hipnotizador.

Eu considerava absurda a possibilidade de que Marfina viesse a se interessar por mim. Me parecia, antes de tudo, vulgar contar-lhe meus sentimentos. Sendo tão bela e convivendo com tantos estudantes – e rábulas e advogados de menor sucesso, que também recorriam aos serviços da Legalista – apaixonarem-se por ela devia ser caso tão banal que nem a comovia mais. Ademais, eu era apenas um estudante pobre e feio, cidadão completamente comum, sem nada que pudesse oferecer a ela além do trivial amor que sentia.

Levou dois anos, mas finalmente tomei coragem. Convidei Marfina para jantar comigo, ou tomar um café, o que lhe parecesse mais conveniente. Sem de fato dizer não, dispensou-me educadamente, disse que era muito ocupada, quando não estava trabalhando na livraria andava às voltas com os trabalhos do curso de Filosofia, que estava prestes a concluir.

Por muito que o resultado da investida me parecesse óbvio desde o princípio, esse conhecimento não me preparou para a dor que senti. No fundo eu alimentava alguma esperança, sonhava com um desfecho que colocasse fim ao ardente desejo que vinha me consumindo desde o primeiro dia. Ter frustrada essa expectativa fez-me amargo por longo tempo, e eu passei a ir à livraria apenas o mínimo necessário, ou até menos do que isso, pois volta e meia pedia a algum amigo que comprasse os livros de que precisava. Achava que, de alguma forma, ela perceberia minha ausência, e se arrependeria de ter me dispensado, fantasia que obviamente não encontrava apoio na realidade, mas essa ideia de puni-la, de poder, mesmo em minha total insignificância, causar-lhe uma migalha que fosse de sofrimento – pois eu acreditava que ela sentia minha falta, mesmo que muito pouco, quase nada – era alentadora, conquanto absurda, mas todo homem acredita em absurdos alguma vez, há mesmo quem nunca deixe de crer neles.

Concluí o curso de Direito e logo em seguida fui aprovado em concurso público para a Procuradoria Real. Se meu velho pai já não fosse defunto, é certo que a notícia da minha aprovação o teria matado de tanto orgulho. Eu não apenas tornava-me advogado, mas seria membro da respeitável Procuradoria Real, órgão que produzira mais juízes da Suprema Corte do que qualquer outro. Meu pai, certamente, já me imaginaria magistrado, de toga e peruca, defendendo a Constituição contra todos os seus inimigos.

Fui designado para uma cidade distante da Capital. Fazia, então, alguns meses que concluíra os estudos, de sorte que não via Marfina desde então. Parece que, em vez de esfriar o sentimento que nutria por ela, a ausência só fez alimentá-lo. Decidi, antes de ir embora, despedir-me dela. Sabia que ela não se importava um mínimo que fosse comigo, mas eu desejava fazê-lo assim mesmo. Fui à Legalista, ela me recebeu com sua habitual simpatia distante. Contei-lhe da minha aprovação no concurso, ela me parabenizou, observei que isso significava que provavelmente não nos veríamos mais, ela simulou uma vaga tristeza, mas disse que a vida era imprevisível, quem sabe o que poderia acontecer no futuro.

Foi quando eu fiz a proposta mais absurda que ela jamais ouvira. Não pude me conter. As palavras fugiram sem chance de contenção, feito água de um dique rachado. Pronunciada a primeira frase, não foi possível deter a enchente. Disse-lhe o que sentia por ela, disse-lhe que me torturava a perspectiva de nunca mais tornar a vê-la, disse-lhe uma infinidade de desvarios, que ela ouviu ligeiramente constrangida. Por fim, peguei-lhe das mãos e perguntei se não desejava casar-se comigo e acompanhar-me rumo ao interior da Nação.

Antes que ela pudesse vestir sua melhor máscara de comoção diante de tão puros sentimentos, antes que ela pudesse calçar sua voz mais sedosa para recusar-me, antes que ela assegurasse que eu era uma pessoa maravilhosa, mas que não lhe era possível retribuir meu amor; ela deixou escapar um breve sorriso de puro sarcasmo. Como é que eu me atrevia, ela provavelmente pensara. O que é que esse sujeito traz na cabeça medonha e calva, que ousadia é essa de pensar que alguém como eu possa sentir qualquer coisa além de uma piedosa tolerância para com ele?

Deixei a livraria arrasado. No dia seguinte tomei o trem rumo ao interior, e por muitos anos não pisei na Capital. Gostaria de dizer que esqueci Marfina, mas seria faltar à verdade. Posso contar nos dedos os dias em que não pensei nela. Eventualmente casei-me, mas o que sentia por minha esposa não era sequer sombra do que Marfina me despertara. A tranquila e melancólica vida de funcionário público no interior foi, pouco a pouco, acalmando meu espírito, mas ainda brilhava, bem fundo em minha alma, uma brasa que não se podia apagar.

Só fui retornar à Capital vinte anos mais tarde, quando minha mãe morreu. A viagem seria longa e dispendiosa, mas me parecia atroz a ideia de não comparecer ao seu funeral. Fui sozinho, sem levar comigo a esposa e os filhos – que agora eu era pai de duas crianças.

Uma vez encerrados os ritos funerários e derramadas as lágrimas de praxe, decidi caminhar pela cidade, sem rumo certo, curioso pelas mudanças que encontraria e pelas memórias que seriam reavivadas. Fui à Livraria Themis e constatei, entre amargo e divertido, que agora qualquer um daqueles volumes tinindo de novos poderia ser meu, sem que isso representasse um peso em meu orçamento. Prestei visita ao escritório onde fora estagiário nos anos de estudante, e meus sucessores quedaram-se assombrados ao saber que um Procurador Real também estagiara ali em seus anos de formação. Fui à Faculdade Real de Direito, sem me fazer anunciar, apenas me misturando ao fluxo de mestres e alunos, e saboreando as agridoces lembranças daquele tempo já distante de juventude.

A Livraria Legalista continuava existindo, e pouco mudara nos últimos vinte anos. Confesso que, ao entrar na loja, assaltou-me uma esperança estranha e irracional de que Marfina ainda trabalhasse lá. Evidentemente não havia sinal dela, a moça que me atendeu não guardava qualquer semelhança com minha antiga musa. Contei-lhe que quando era estudante frequentava aquela livraria, ele respondeu-me um “ah” desinteressado. Pensei em perguntar-lhe sobre Marfina, mas o ridículo da ideia me dissuadiu.

Voltei às ruas com um desejo latente de procurar por Marfina de alguma forma. Era uma ideia tão tola que eu me recusava a dar-lhe voz, mas não posso negar que ela se instalara em mim. Entretanto, eu não tinha meios sequer para começar esse empreendimento. Ignorava por completo qualquer informação sobre ela, exceto pelo primeiro nome. Até mesmo sua aparência agora com certeza seria muito diferente da que eu tinha queimada nas retinas. Vaguei sem ter noção do tempo, escureceu sem que eu quisesse retornar ao hotel, sentia-me miserável e deprimido, odiando Marfina a cada passo que dava.

Então, ao dobrar uma esquina, dei de cara com ela.

Ela não mudara tanto quanto eu previa. Trazia os cabelos mais curtos e o corpo mais pesado. A pele, num primeiro exame, era tão lisa quanto antes, mas, logo percebi, à custa de uma grossa camada de maquiagem. Dirigiu-me um sorriso, que já não era tão luminoso.  Deu-me boa noite, e percebi que ela não me reconhecera.

Estávamos perto da garagem dos bondes, área em que, sob tolerância das autoridades constituídas, convertera-se, desde tempos imemoriais, em zona de prostituição. Rapidamente entendi tudo: o sorriso, a pesada maquiagem, as roupas que vestia.

Respondi o cumprimento, mas não fui capaz de retribuir o sorriso. Então foi este o fim de Marfina. Não pude deixar de sentir-me um pouco vingado: recusara ser esposa de um Procurador Real, que ainda por cima a amava com desesperada devoção, para se prostituir nas ruas. Em seguida me ocorreu examinar a questão por outro ângulo. Antes prostituta nas ruas do que casada com o decadente e feio Procurador, pode ser que ela concluísse, ao recapitular a proposta de casamento que eu fizera anos atrás, se é que ao menos lembrasse disso.

Marfina cobrava mais barato do que os volumes da Livraria Themis. Não pude resistir. Acompanhei-a até uma pensão nos arredores, ela me conduziu a um quartinho modesto, mas limpo. Mandei que tirasse a roupa, finalmente pude contemplar o corpo que tantas vezes desnudara em imaginação. Não tinha os seios tão redondos quanto os que eu criara em sonho, e os quadris já não ondulavam mais com o balanço hipnótico de antes. Da longa cauda de cabelos que eu, mais que tudo, uma vez desejara ter nas mãos, nem sinal.

Paguei-lhe o dobro do que havíamos combinado na rua. Perguntou-me, sorrindo, se a havia considerado assim tão boa, eu menti que sim. Então, por puro sadismo, ou auto comiseração, não sei bem, contei-lhe quem eu era. Lembra-se, Marfina, de quando a pedi em casamento, na Livraria Legalista, há mais de vinte anos? Recusaste minha proposta para terminar nas ruas e nunca mais encontrará quem te ame como eu te amei; foram estas as duras palavras que dirigi a ela. Pensei que me sentiria vingado, mas em vez do gosto sanguíneo da vingança bem executada, me inundou a boca um sabor amargo de bile rançosa. Vi que furtiva lágrima escorreu de seu olho esquerdo, e perguntei-me se era arrependimento por não ter aceitado minha proposta, ou, mais provável, saudades de uma época em que ela era capaz de despertar tais paixões.

Deixei a pensão sem esperar por Marfina, que nada me respondera e ainda terminava de vestir-se. Rumei para o hotel, e, nas ruas desertas, embora houvesse finalmente saciado, ainda que por vias muito distintas das que eu pretendera, um desejo alimentado literalmente durante décadas, sentia-me mais vazio do que nunca.

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Dez grandes filmes de horror dos anos 2010 (que você provavelmente não viu)

Ao contrário do que pregam os desavisados, o cinema de horror não é, hoje, inferior ao que era praticado nos anos 70 ou 80. Muitos grandes filmes estão saindo, introduzindo ideias verdadeiramente frescas e libertando o gênero das amarras da paródia/metalinguagem que ditou o rumo nos anos 90.

A lista abaixo não consiste nos “melhores” filmes da década, e sim naqueles que, apesar da qualidade, podem ter passado despercebidos. Por isso, títulos exemplares como Corrente do Mal, A Bruxa, O Segredo da Cabana, O Babadook e O Espelho não entraram: apesar de sua inegável qualidade, são filmes mais conhecidos, e a ideia era priorizar títulos de menor alcance.

Também não entraram filmes como Uma Noite de Crime, Corra! e O Convite, também muito bons, mas que me parecem mais de suspense do que de horror. Seja como for, todos os filmes até aqui mencionados são no mínimo dignos, e merecem nossa atenção: se você não os viu, não deixe de fazê-lo.

Sem mais enrolação, vamos a eles (ao clicar no título do filme abre-se o link dele no IMDb, para quem quiser mais informações):

willow_creek_ver2#10: Willow Creek (2013, Estados Unidos, direção e roteiro de Bobcat Goldthwait)

Found footage sobre um casal de namorados em busca do mítica criatura conhecida como Pé Grande. Contrariando todos os prognósticos que essa sinopse possa levantar, o filme brilha com uma construção eficiente e um clímax que é um dos planos sequência mais tensos de toda a história do cinema.

 

 

berberian_sound_studio_ver4#9: Berberian Sound Studio (2012, Reino Unido, direção e roteiro de Peter Strickland)

O segundo filme de Strickland (que em seguida faria a obra prima O Duque de Burgundy) é antes sobre o cinema de horror do que propriamente um filme de terror, embora também possa ser enquadrado na segunda categoria. Confiando mais numa atmosfera muito discreta e etérea do que em sustos ou imagens chocantes, o longa é sobretudo uma competente homenagem ao cinema de horror italiano dos anos 70, que colocou no mapa realizadores como Mario Bava, Lucio Fulci e, claro, Dario Argento.

 

QUANDO-EU-ERA-VIVO1#8: Quando Eu Era Vivo (2014, Brasil, direção de Marco Dutra, roteiro de Marco Dutra e Gabriela Amaral)

Muito se fala que o cinema brasileiro não produz bons filmes de gênero, o que não deixa de ser verdade em algum grau, mas há exceções. Baseado no livro A Arte de Provocar Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli, Quando Eu Era Vivo é um exemplo de que o cinema brasileiro pode produzir filmes de horror que nada devem aos estrangeiros. Como boa parte desta lista, é um longa que confia mais na atmosfera do que no choque para criar seu clima, com resultados impactantes e eficazes.

 

honeymoon#7: Honeymoon (2014, Estados Unidos, direção de Leigh Janiak, roteiro de Leigh Janiak e Phil Graziadei)

A grande arma de Honeymoon é o mistério. Suspeitamos, ou melhor, sabemos, que existe alguma coisa acontecendo, mas o filme adia o quanto pode a revelação final, fazendo escalar a sensação de paranoia no espectador, igualando-o, assim, aos personagens.

 

 

 

kill_list_ver2#6: Kill List (2011, Reino Unido, direção de Ben Wheatley, roteiro de Ben Wheatley e Amy Jump)

O grande mérito do diabo foi convencer a humanidade de que ele não existe, e um dos grandes méritos de Kill List é convencer o espectador de que está diante de um filme que não é de horror. Quando nos sentimos seguros o bastante, são introduzidos paulatinamente elementos de mais e mais estranheza e medo, até culminar num desfecho nada menos que horripilante e completamente inesperado. Kill List segue a tradição do chamado folk horror de filmes como O Homem de Palha, com competência o bastante para se igualar a esse clássico absoluto do cinema britânico.

dark_song_ver2#5: A Dark Song (2016, Reino Unido e Irlanda, direção e roteiro de Liam Gavin)

Esse é um exemplo minimalista de cinema de terror, são praticamente só dois atores, uma locação, e um horror muito mais sugerido do que mostrado. Apesar de um terceiro ato não tão bem executado, o filme compensa com doses cavalares de tensão e momentos genuinamente brilhantes, como por exemplo a cena em que dois personagens conversam através de uma porta fechada, capaz de causar calafrios até nos mais experimentados.

 

under_the_shadow#4: Sob a Sombra (2016, Irã, Reino Unido, Jordania, Qatar; direção e roteiro de Babak Anvari)

Filme iraniano virou praticamente sinônimo de cinema cult, hermético e, para muita gente, chato. Esse, entretanto, é um excepecional espécime de filme de horror, que tem no exotismo de sua origem apenas um charme adicional. Horror e política são assuntos que há muito andam juntos no cinema, e num filme realizado em um dos países mais conturbados do mundo não poderia ser diferente. Sob a Sombra é bem sucedido tanto no comentário político quanto em causar medo.

 

girl_with_all_the_gifts#3: The Girl With All The Gifts (2016, Reino Unido e Estados Unidos, direção de Colm McCarthy, roteiro de Mike Carey)

Assim como o anterior, esse também traz um forte subtexto político, ainda mais do que o filme iraniano. Desde George Romero que o zumbi é o monstro mais “politicamente engajado” do cinema, e The Girl… mantém a tradição, compondo uma alegoria da atual situação europeia, com a imigração em massa ameaçando o futuro da própria civilização na Europa.

 

trabalhar_cansa#2: Trabalhar Cansa (2011, Brasil, direção e roteiro de Marco Dutra e Juliana Rojas)

Aqui temos um exemplo perfeito de como deve ser a construção em um filme de horror. Somos introduzidos a uma realidade absolutamente banal, que aos poucos vai sendo infiltrada por pistas de que algo não está certo. Alguém poderia se queixar de que a promessa de um clímax realmente horripilante nunca se cumpre de fato, mas a grande estrela aqui é o clima, a atmosfera que, justamente por sua banalidade torna-se perfeitamente crível, e por isso mesmo perturbadora a ponto de fincar raízes profundas na memória e no espírito do espectador.

blackcoats_daughter_xlg#1: February (2015, Canadá e Estados Unidos, direção e roteiro de Osgood Perkins)

O filme de horror quase sempre tem o medo como maior matéria prima emocional. February também coloca na mistura, com uma pungência poucas vezes observada no gênero, emoções tão profundas, humanas e inquietantes quanto: melancolia, tristeza, solidão e inadequadação dão o tom do filme. O resultado é um trabalho intimista e complexo, mais profundo do que a média do estilo, mas que de forma alguma abre mão de seu objetivo maior, ou seja, causar medo, com momentos verdadeiramente de gelar a alma, e uma atmosfera magistralmente construída.


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O livro das revelações

Todas as grandes revelações ocorrem subitamente, nos atingindo feito piano despencado do vigésimo andar. Ninguém imagine que Joseph Smith se preparara de alguma forma para o momento em que Deus e Jesus Cristo lhe solicitaram. Quando ocorreu a Arquimedes a solução do problema matemático que o assolava, o choque e a euforia foram de tal sorte que ele não teve remédio senão romper, nu em pelo, pelas ruas de Siracusa, bradando eurekas aos quatro ventos.

Assim foi quando soube que tinha pau grande.

Fui gordo durante toda minha vida. Aos que desconhecem os aspectos mais elementares da biomecânica do homo sapiens, estejam cientes do fato que a obesidade provoca uma redução, se não real ao menos aparente, do órgão reprodutor masculino. O mecanismo é simples: a gordura se acumula na região dos quadris, “enterrando”, por assim dizer, o dito cujo.

Já havendo nascido gordo – um dos bebês mais pesados a vir ao mundo nesta cidade, está documentado – sempre fui um desfavorecido neste tocante. Tanto que era assunto de menor importância no meu radar mental, ainda mais que me casei cedo, e sendo então virgem a minha noiva, não me preocupava que ela pudesse me comparar com cidadãos mais abençoados.

As coisas começaram a mudar quando, por trazer miserável a saúde, fui obrigado pelo médico a uma completa reformulação corporal, sob pena de não ver crescer meus filhos. Após bem sucedida cirúrgia bariátrica, perdi mais de sessenta quilos. Era, portanto, um novo homem.

Eventualmente notei a diferença. O órgão símbolo de minha masculinidade aumentara de forma considerável. Após empreender medições e algumas pesquisas na internet, tornei-me cônscio do inesperado fato: eu tinha pau grande. Não grande que me permitisse tentar carreira na indústria pornográfica, mas o bastante para estar, com folga, acima da média mesmo nos países mais bem colocados – é impressionante a quantidade de informação a que se tem acesso hoje em dia.

Custei a aceitar a verdade. Eu me acostumara ao membro pequeno, inexpressivo, funcional, é certo, mas sem qualquer extravagância. Agora era confrontado com essa inesperada realidade. Eu, cidadão comum, absolutamente mediano em todos os aspectos possíveis e imagináveis até então, descobria-me privilegiado, detentor de característica invejada e rara.

Aos poucos, saber-me possuidor de dom tão cobiçado começou a me perturbar. Imaginemos um sujeito que vivia tranquilamente em um pequeno rancho, sem grandes confortos mas também sem preocupações particularmente inquietantes. Um dia, ele descobre que sua propriedade está assentada sobre gigantesca reserva de petróleo, daquelas capazes de impactar o produto interno bruto de um país de médio porte. O sujeito será completamente incapaz de seguir a vida como era até então. Se sentirá consumido por uma comichão incontrolável de fazer alguma coisa, qualquer coisa, com relação aos recursos recém descobertos. Mesmo que decida permanecer onde está, pois percebe que extrair petróleo é operação complicada e cara, exigindo recursos e logística dos quais ele não dispõe, as promessas de riqueza e luxos até então inalcançáveis destruirão por completo sua paz de espírito.

Assim foi comigo. Eu tinha pau grande. Não era possível continuar minha pacata vida de pai de família pagador de impostos, levando entre as pernas essa verdadeira reserva de petróleo. Começou a me assombrar a ideia de que era um tremendo desperdício usar tudo aquilo apenas com a minha santa esposa, quando tinha à minha disposição um passaporte para as mais belas mulheres do mundo. Levei a questão a um amigo, muito mais sabido do que eu. Forneci-lhe as medidas que auferira anteriormente, e sua reação foi primeiro deixar escapar um assovio de admiração. Em seguida garantiu-me não haver no mundo fêmea que, tendo acesso aos dados métricos em questão, recusaria a proposta de conferi-los por si mesma.

Tendo sido obeso e pobre por toda minha vida, minhas aventuras românticas e sexuais constituíam um retrospecto de árida pobreza. Não à toa casei-me tão cedo, com uma mulher que, conquanto fosse ótima pessoa, não era propriamente encantadora de um ponto de vista plástico. De repente me via dono da chave capaz de destrancar a juventude perdida de prodígios amorosos. Qualquer mulher que soubesse o tamanho do meu pau se veria imeplida a ir para a cama comigo, garantira meu amigo. Era uma questão de comer a primeira, ele disse, e assim que a notícia se espalhar você estará feito.

O problema era justamente comer essa primeira.

Tal e qual o rancheiro que descobre petróleo em sua proprieadade, rapidamente a euforia cedeu diante de uma série de complicações de ordem prática. Eu podia ter pau grande, mas isso não me tornava menos desinteressante. Afinal, continuava sendo um cidadão mediano, de restritas posses materiais, personalidade pálida e aparência comum. Para piorar ainda mais a situação, eu era casado, o que restringia muito minha liberdade de caça.

Fato é que não pude conquistar a tão procurada primeira, o segredo que abriria o cofre de orgias sem fim. Empreendi algumas tentativas, que fizeram água, uma vida inteira de inaptidão com o sexo oposto minando minhas já minguadas chances. Se era questão de espalhar a notícia talvez eu pudesse divulgar as medidas em jornal de grande circulação. Mas alguém acreditaria? E havia o problema da publicidade, que eu absolutamente não fazia planos de romper meu casamento.

Aos poucos uma frustração ansiosa se instalou em mim. Era preciso fazer algo que colocasse em uso a dádiva recém concedida, sem que eu pedisse ou esperasse, a mim. Impossível saber-se dono de reserva massiva de petróleo e continuar a vida como se nada. Era essa a natureza da perturbação em meu espírito.

Como não lograsse êxito com as civis, decidi recorrer às profissionais. Pareceu-me uma solução besta desde a sua incepção, mas era preciso fazer qualquer coisa. A experiência não serviu para acalmar-me. Tive a impressão de que, para ela, eram de pouca ou nenhuma importância as dimensões que eu ostentava, estando antes interessada na duração do programa e na prontidão do pagamento. Não podendo conter-me, perguntei-lhe se achava meu pau grande. Sem nenhum resquício de sinceridade, garantiu que sim, que era o maior que jamais vira.

Frustrado, já estava a ponto de desistir. Até então eu estava confortável na condição de homem mediano, casado e fiel, já resignado à noção de que nunca teria uma vida sexual digna de um Casanova. Por que, então, isso agora me inquietava tanto? Porque, antes, eu me considerava totalmente inapto para empreender essas selvagens aventuras. Agora, sentia-me como um pássaro que, tendo asas perfeitamente sadias, não voasse.

Passei algumas semanas em amarga desolação. Não podia ser esta a minha sina, dono de arma de tão portentoso calibre terminar morto por golpe de punhal. Certa noite, a alma banhada em negro pesar, saí sem rumo pelas ruas. Não sei quanto tempo estive em desvairado errar, até que finalmente cansei-me. Encontrando uma pracinha, sentei-me num dos bancos e ali fiquei.

Foi quando veio em minha direção um sujeito que, a princípio, pensei ser mendigo. Um homem muito velho, caolho, de chapéu e longo casaco. Não tinha, porém, o andar trôpego e o ar amalucado dos que vivem na rua. Antes parecia-me uma figura marcial, talvez até mesmo régia. Sentou-se ao meu lado e deu-me boa noite.

Começamos a conversar banalidades. Em dado momento o velho comunicou que me julgava abatido, e desejou saber a razão. Decidi contar-lhe meus infortúnios, o que levou uma boa meia hora, mas ele me ouviu com paciência e atenção. Quando concluí o relato, ele disse:

Então quer dizer que tem um pau grande mas não encontra nada que fazer com ele?

Sim, de fato, e isso vem destruindo sistematicamente a minha paz.

Quis saber quão grande era, forneci-lhe as dimensões e ele assentiu que, de fato, era mesmo bastante acima da média. Levantou-se e deu dois passos em direção à rua, quando parou e, sem virar-se, perguntou:

Sendo assim grande, é bem provável que chegue até o umbigo, verdade?

Confirmei que sim.

Pois, se chega até o umbigo, já sei o que você pode fazer com ele.

Deixei-me estar em silêncio, a espera do sábio – pois aquela curiosa figura emanava uma aura de pura sabedoria – conselho que me daria.

Faz a volta e enfia no cu. – e se afastou, sem olhar para trás, rindo baixinho.


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Pepito

Marido e esposa estão confortavelmente instalados em sua elegante sala de estar. Acomodados em grandes poltronas, lêem, muito quietos, grossos volumes encadernados em couro.

Após longo período de imaculado silêncio, a esposa emerge da leitura. Esfrega os olhos e consulta o relógio de pulso.

-Está na hora da mamadeira do Pepito.

Também ele abandona a leitura, como se despertasse de um longo sono. Deposita o livro, ainda aberto, as páginas voltadas para baixo, sobre a coxa direita.

-Não o ouvi chorar. Não deve estar com fome.

Ela encara as unhas por alguns segundos.

-Você sabe que o Pepito é um bebê muito quietinho.

Ele dobra a página em que parou a leitura, para marcá-la. Fecha o livro e coloca-o na mesa de centro.

-Você bem que poderia dar de mamar pra ele hoje – ela propõe.

-Bem… eu diria que leite é um assunto materno – dá um sorriso opaco.

-Seria bom se você passasse mais tempo com o Pepito. Eu tenho a impressão que desde que…

Ela interrompe bruscamente a frase e um vácuo inquietante de silêncio preenche a sala. Levanta-se e vai à cozinha. Volta minutos depois, com uma mamadeira cheia. Entretanto não se dirige ao quarto de Pepito. Torna a sentar-se.

Ele sente que precisa dizer alguma coisa. E diz.

-Você acha que eu tenho evitado o Pepito depois que ele…

-Querido… – ela olha pra baixo.

-Depois que ele sofreu aquele pequeno acidente. – o leite no interior da mamadeira oscila com o tremor das mãos que a seguram – Mas isso não é verdade. É só que eu não tenho o mesmo jeito que você tem com crianças.

-Mas ele não é qualquer criança! – sua voz avança vários decibéis – É o nosso filho! É o teu filho!

-Querida, eu sei disso. Eu amo muito o Pepito. É só que… bem, desde que ele… sofreu aquele pequeno acidente – ela volta a encarar o chão, claramente incomodada – me parece que ele me estranha um pouco. Deve passar, é uma fase. É só por isso que não tenho passado tanto tempo com ele.

-Jura que é isso?

-Juro. Esses últimos meses foram muito difíceis pra nós. Imagino que também pra ele, coitadinho.

-Eu não gosto nem de lembrar daquele dia. Mas não consigo esquecer. Você se lembra? Lembra de como ele estava depois do acidente? De como ele parecia tão machucado, tão pequeno, tão… tão… quando eu o vi achei que ele estivesse…

Lágrimas grossas descem por seus olhos verdes e ela se cala. O marido compreende. Também ele não gosta de pensar naquele estranho dia. Mas não consegue evitar. Não se passa um dia inteiro sem que ele recapitule tudo que aconteceu. O acidente de Pepito. A corrida para o hospital, o desespero da esposa embalando Pepito, inerte, entre lágrimas. Chegou a perder as esperanças. Pepito parecia…

A voz da esposa o arranca de suas recordações.

-Por sorte aquela enfermeira estava de plantão, não é mesmo? Quando o médico chegou ele já estava bem melhor. Foi graças a ela, não foi? Foi um verdadeiro milagre que ela estivesse lá.

Mais tarde ele apurou que não trabalhava, naquele hospital, nenhuma enfermeira com aquela aparência ou nome. Mas ele nunca disse isso à esposa. Também nunca teve coragem de relatar a conversa que teve com aquela estranha mulher.

-Eu entendo o que você sente com relação ao Pepito, querido.

-Entende?

-Sim. Eu sei que… desde o acidente ele… tornou-se um pouco diferente do que costumava ser. Eu sei disso, é óbvio. Mas, querido, é um verdadeiro milagre que ele esteja aqui, não é? Que ele tenha… sobrevivido. Então eu fico feliz por isso. Mesmo que ele esteja um pouco diferente. Você não?

-É claro que sim…

Neste instante um ruído enche a sala. Algo que faz vagamente lembrar um choro de bebê. O casal se encara, olhos esbugalhados. Não piscam.

Novamente faz-se silêncio. Ninguém diz nada. Ninguém faz menção de levantar-se. Não se olham mais. Ele retorna à leitura. Ela deixa-se estar sentada, brincando nervosamente com a mamadeira entre dedos trêmulos, o leite esfriando sem que isso pareça incomodá-la.


Este blog aceita doações de seus leitores. Qualquer valor é bem vindo. Para doar, basta clicar no botão abaixo. Para mais informações, clique aqui.

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Me dá um dinheiro aí

O brasileiro é potencialmente o povo mais mendigo que existe, e não me refiro apenas à acepção literal da palavra, embora esta também se aplique. Um exemplo muito contundente disso é o Netflix. Ainda que seu plano mais caro não ultrapasse o custo de 30 reais por mês, é raro um brasileiro que assine o serviço sem lançar mão de toda sorte de maracutaias para dividir a conta com mais gente. O brasileiro é tão mendigo que é simplesmente incapaz de pagar míseros 30 reais por mês se for possível, através de alguma desonestidade, pagar menos.

Entretanto, a mendicância do brasileiro não é apenas material. É afetiva, mental, existencial. Observe-se o perfil de qualquer mulher bonita em redes sociais. Qualquer besteira que ela poste receberá uma torrente de elogios, likes, coraçõezinhos, cantadas de pedreiro. A condição de mendigo do brasileiro é o que explica a idolatria por figuras tão abomináveis quanto Lula, Bolsonaro e João Dória. Os nascidos nesta terra são tão carentes, tão frouxos, enfim, tão mendigos, que qualquer migalha é banquete. Não existe nada mais barato que um brasileiro: os que ainda não venderam a alma é porque não encontraram comprador.

Quando falo em brasileiros, não pensem que estou me excluindo. Infelizmente eu também nasci nessa grande massa territorial que compõe a maior parte da América do Sul. E, por muito que exerça vigilância sobre meu próprio espírito, de maneira a escapar da indigência existencial, me é impossível evitar totalmente essa condição essencial do brasileiro.

Esses parágrafos ficam à guisa de introdução para o verdadeiro motivo deste texto: o blog agora está aceitando doações. Eu poderia compor um longo e choroso texto sobre como manter este espaço é custoso, exigindo que eu invista somas consideráveis de dinheiro em sua manutenção. Mas que nada, eu nunca gastei um tostão com isso aqui. Eu poderia tecer linhas e mais linhas de lamúrias sobre como é difícil viver de arte no Brasil, que estou passando fome e tal. Mas, para minha desgraça, eu prezo pela sinceridade. Conquanto eu não seja nenhum nababo, tenho o bastante para viver e para manter meus pequenos luxos e idiossincrasias.  Eu poderia suborná-los com a promessa de que, se o blog receber muitas doações, eu passaria a publicar com mais frequência. Mas todos sabemos que isso não vai acontecer, mesmo que eu recebesse fortunas eu continuaria publicando apenas quando e se desse na telha. Se eu fosse mulher e bonita eu poderia recompensar meus mecenas com o acesso a um exclusivo ensaio sensual, mas se eu fosse mulher e bonita eu não escreveria nada que prestasse, e o blog nem mesmo existiria pra começo de caso.

Mas então por que diabos eu deveria dar dinheiro a um marmanjo criado feito você?, perguntará mais de um indignado. Realmente não tenho uma boa resposta pra isso. Talvez porque seja moralmente correto e até mesmo nobre recompensar àqueles que criaram trabalhos que nos tocaram de alguma forma, como imagino que meus textos devem ter feito a vocês, do contrário vocês não os leriam, creio. Mas a quem estou querendo enganar? Meus leitores são todos brasileiros, portanto mendigos, e jamais pagariam por algo que podem ter de graça. Eu poderia, talvez, tornar o acesso ao blog exclusivo aos que contribuíssem com algum valor, mas, novamente, a quem eu quero enganar? Quem, no Brasil, pagaria pelo acesso ao blog de um escritor tão obscuro?

Enfim, contribuam se quiserem. Se não quiserem, saibam que continuo amando vocês do mesmo jeito. Nunca escrevi por dinheiro, não vai ser agora que vou começar. Se você for tão fodido a ponto de não ter nem mesmo um real para doar, você provavelmente deveria desligar agora mesmo o computador/celular e ir dar um jeito na vida. Mas se, antes de começar a grande guinada que o levará  ao sucesso, você ainda assim quiser contribuir com o blog de alguma forma, estou aceitando também doações de discos, livros e nudes das leitoras bonitas.

Se você não for tão fodido quanto o leitor a quem me dirigi no parágrafo anterior e quiser apenas me dar uma grana mesmo, sugiro pensar melhor e avaliar quantas formas mais interessantes e recompensadoras existem de gastar seu dinheiro. Se depois disso você ainda continuar firme na intenção, basta clicar no botão “doar” abaixo.

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Alice não vive mais aqui

Meu vizinho é um homem velho. Cabelos brancos, postura já não muito segura, gestos um tanto hesitantes; mas ainda perfeitamente capaz de viver sozinho, como de fato vive. Não é rico, se fosse viveria em bairro melhor, mas não deve ser pobre. Tem um carro prata que, se está longe de ser um modelo de luxo, também está muito distante da condição de sucata móvel. Não sei que profissão exercia, creio que contabilista, astronauta ou tradutor, mas fosse qual fosse, já aposentou-se. Meu vizinho pouco sai. De manhã bem cedo vai à padaria buscar pão, leite, frios, cigarro. Se alguma vez foi casado, sua esposa tentava manter sob controle seu tabagismo. Desde que ela morreu, suprema ironia, de cancer no pulmão, ela que nunca pusera artigo feito de tabaco nos lábios, ele fuma sem controle.

Meu vizinho não tem amigos. Se os tem, nunca os recebeu na casa onde tem vivido nos últimos dois anos. Não tem filhos. A esposa que não sei se de fato teve era estéril. Tentaram alguns tratamentos de fertilidade, sem lograr êxito. Quando desistiram, contemplaram a ideia de adotar uma criança. Por fim decidiram não fazê-lo. Tinham um ao outro, e isso bastava.

Talvez meu vizinho jamais tenha se casado. Pode ser que tenha sido abandonado pela mulher de sua vida, por razões que nunca chegou a compreender de fato. O impacto foi tal que ele nunca mais quis se envolver com quem quer que fosse, decisão que não chegou a ser difícil de manter, pois meu vizinho é e sempre foi um homem sem grandes atrativos, invisível para as mulheres. Na juventude, solucionava as urgências do corpo mediante auxílio de profissionais dedicadas. Conforme os anos avançaram, a necessidade de carnes trêmulas e rosáceas cedeu ao imperativo das pílulas de toda sorte de cores e formatos, e a fatia do orçamento que dedicava a uma foi transferida a outro, sem drama ou luto.

Aos sábados bem cedo meu vizinho sai com seu carro e não volta antes da noite de domingo. Não sei aonde ele vai ou por que motivo, mas imagino que ele tenha um sítio onde passe os finais de semana. Ele poderia viver lá e economizar o dinheiro do aluguel, que não chega a ser barato, mas se sente sozinho demais no campo. A solidão lhe parece mais leve quando está na cidade, o som ao redor lhe faz sentir que tem companhia. Então empreende essas jornadas semanais rumo ao campo. Gosta de pescar, embora não goste muito de comer peixe. Quando chove ou faz frio, condições adversas à prática da pesca, vai ao sítio assim mesmo. É um homem do hábito, foi ao sítio em praticamente todos os fins de semana desde que comprou a propriedade e não vê motivos para deixar de fazê-lo.

Eu não sei como meu vizinho se chama, mas gosto de pensar que ele tem um nome antigo, empoeirado e solene, desses que imediatamente nos fazem pensar em tempos remotos. Gostaria que ele se chamasse Plínio, Porfírio ou Péricles, que carregasse um relógio no bolso do colete e usasse chapeu côco. Quanto ao nome não sou capaz de ter certeza, mas meu vizinho não usa colete ou chapeu, e não me consta que possua um relógio de bolso.

Meu vizinho dorme cedo. Não gosta de televisão, penso que nem mesmo tenha um aparelho. Por conta da insônia e da aposentadoria, tem uma grande quantidade de horas diárias para gastar como quiser. Deve ter algum hobby levemente excêntrico que ajude a distraí-lo do tédio, algo como filatelia, confecção de dioramas, bonsai ou xadrez por correspondência. De vez em quando ouve o rádio, sobretudo a noite, quando consegue captar  estações de cidades distantes. Gosta de ouvir as notícias dessas cidades onde nunca esteve nem nunca estará, provoca-lhe uma sensação de conhecer, de alguma forma, esses lugares misteriosos.

Meu vizinho já pensou seriamente em suicídio, mas é um homem do hábito, e nada pode ser mais inabitual do que a morte. Entretanto, apressando-a ou não, é fato que meu vizinho vai morrer, e isso não deve demorar muito, considerando a idade que tem e a quantidade de cigarros que fuma. É possível que se passem alguns dias antes que alguém se aperceba de sua morte. Ninguém irá reclamar seus poucos bens, e em questão de semanas, salvo por meia dúzia de documentos espalhados em arquivos de cartórios, e por estas linhas que poucos lerão; não restará vestígio ou lembrança de sua passagem sobre a Terra.

Eu gostaria de conhecer meu vizinho. Talvez pudessemos ser bons amigos. Indo mais longe, eu poderia ser o filho que ele nunca teve. E ele, o pai que eu jamais conheci. Pode ser que meu vizinho também anseie por me conhecer. Mas ambos sabemos que isso jamais acontecerá. O muro de cimento, tijolos e silêncio que há entre nós é grande demais, alto demais, forte demais. Contentamo-nos com o bom dia murmurado entredentes e o aceno tímido de cabeça que trocamos quando nos encontramos de manhã, ele a caminho da padaria, eu do trabalho, mas ambos, inexoravelmente, a caminho do esquecimento.

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Deus abençoe a retórica

Diz-se que religião é uma questão de escolha. Não me parece. Tenho dificuldade em aplicar aos assuntos espirituais o mesmo pragmatismo de quem escolhe, na gôndola do supermercado, a melhor marca de requeijão. A ideia de alguém comparando racionalmente todas as religiões disponíveis e pesando prós e contras para então aderir a que melhor atenda suas necessidades, me parece material saído de alguma sátira.

O princípio de qualquer religião é a crença. E crer não é uma questão de racionalidade. Assim fosse, não haveria pessoas razoavelmente inteligentes acreditando que vacinas causam autismo e que os dinossauros nunca existiram. Não sei que espécie de mecanismo usamos para decidir entre acreditar em um, mais de um ou nenhum deus, mas penso que ele seja quase que totalmente, senão em absoluto, separado do processo lógico.

Eu, por exemplo, sou ateu desde que consigo me lembrar. Por muito que tentassem me incutir, a princípio a noção de Deus e mais tarde a religião em si, não tenho nenhuma recordação de alguma vez ter acreditado naquilo. Não foi um processo consciente de decidir que eu não acreditava em nada, foi algo que sempre esteve em mim.

Diz-se que a vida sem deuses é muito difícil. Concordo. Mas a vida com deuses não me parece nem um pouco mais fácil. Carl Sagan, meu companheiro de ateísmo mais notório, mais talentoso e mais beligerante, cunhou a seguinte frase: “pode ou não haver outras civilizações no universo. Ambas as possibilidades são aterradoras”. Eu costumo empregar essa frase, mas substituindo “outras civilizações” por “deuses”.

Talvez por sua raridade num país de maioria esmagadoramente cristã, o ateu no Brasil é visto como uma criatura exótica. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Até prova em contrário, o ateu é um ser humano absolutamente ordinário, e sua vida não é, apenas pelo simples fato de ser ateu, mais ou menos ordinária do que a de um crente.

Há, contudo, uma complicação de ordem prática no ateísmo, uma que chega a ser bastante incômoda: a linguagem.

Pensemos em quantas expressões de uso cotidiano pressupõem algum tipo de crença. Quando nos despedimos, é comum empregarmos “fique com Deus”, ou a variável, por vezes usada maldosamente, “vá com Deus”. Se precisamos atribuir peso a uma declaração recebida com incredulidade, isso pode facilmente ser feito com a expressão “juro por Deus”. Se quisermos trazer bons argúrios a uma empreitada vindoura, as palavras certas para isso são “se Deus quiser”. São apenas alguns exemplos, pois a ocorrência desse tipo de expressão é imensa, e listar todas ocuparia tempo e espaço dos quais não queremos dispor.

O ateu, então, tem diante de si duas possibilidades. A primeira é abolir essas frases e substituí-las por outras. Mas, o que parece simples não sustenta esta aparência sob um exame mais arguto. Digamos que um ateu esteja tentando se fazer acreditar por uma plateia resistente. Por quê ele poderia jurar? “Juro pelos meus filhos!” Mas e se ele não os tiver? “Juro por minha vida!” Uma vida, num mundo onde a contagem destas já soma sete bilhões e não para de crescer, tornou-se banal. Não há coisa alguma pela qual nosso ateu hipotético possa jurar que tenha o mesmo peso de um juramento sob Deus.

Observando que abolir a divindade não apenas de sua vida mas de sua linguagem é tarefa ingrata e sujeita a toda espécie de complicações, o ateu poderá adotar uma diferente postura. Que é a de continuar empregando essas expressões como se não houvesse problema algum nisto. Claro que essa postura exige uma certa dose de hipocrisia, talvez até mesmo de traição dos próprios princípios. E, se estivermos errados e houver um Deus, penso que ele não ficaria particularmente feliz em ter Seu nome empregado para legitimar juramentos falsos – sejamos francos: quase sempre que alguém “jura por Deus” é pra dar credibilidade a uma mentira das mais mirabolantes. E quem pode saber que espécie de castigos Deus reserva aos que tomam Seu nome emprestado para legitimar sabe-se lá que vis patifarias? Somos ateus, é verdade, mas o emprego da prudência, até onde se sabe, nunca causou nenhuma espécie de mal.

Novamente voltemos ao caso pessoal e concreto. Certa feita uma pessoa soube de algo que eu efetivamente havia feito, mas, não havendo provas cabais do ocorrido e sendo do meu melhor interesse que tal informação fosse tomada por mentira; lancei-me com ferocidade à missão de convencer a tal pessoa de que os fatos dos quais ela tomara conhecimento não passavam de infame calúnia contra mim. A missão, entretanto, mostrava-se mais árdua do que a princípio eu calculara. Desesperado, lancei mão de um último recurso, verdadeira bomba nuclear da retórica. Dedo em riste, apontando para um Deus que, tomara, não estava lá, lancei:

– Tendo Deus por testemunha, juro que não fiz isso.

É provável que meu tom de voz e expressão genuinamente indignados, de vítima de terrível e alvitante injustiça, tenham contribuído. Mas invocar Deus é que foi decisivo. Com essa frase curta, consegui produzir imediatamente o resultado que vinha tentando há quase uma hora, sem sucesso.

De forma que ser ateu não é difícil. Mas ter um vocabulário completamente ateu, é.

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